domingo, 14 de fevereiro de 2010

Notícias

Li este poema há pouco e acho que reflete bem o meu momento.
Os telegramas chamam para a necessidade de olhar a si mesmo.
A casa é a alma, sedenta de purificação. De uma limpeza da "caixinha de telegramas".
Ou talvez a alma seja a cidade enigmática, que me chama diante da paralisia...
Ou talvez eu esteja mais uma vez divagando, com interpretações outras de um poema.


Notícias
Carlos Drummond de Andrade


Entre mim e os mortos há o mar
e os telegramas
Há anos que nenhum navio parte
nem chega. Mas sempre os telegramas
frios, duros, sem conforto.

Na praia, e sem poder sair.
Volto, os telegramas vêm comigo.
Não se calam, a casa é pequena
para um homem e tantas notícias.

Vejo-te no escuro, cidade enigmática.
Chamas com urgência, estou paralisado.
De ti para mim, apelos,
de mim para ti, silêncio.
Mas no escuro nos visitamos.

Escuto vocês todos, irmãos sombrios.
No pão, no couro, na superfície
macia das coisas sem raiva,
sinto vozes amigas, recados
furtivos, mensagens em código.

Os telegramas vieram no vento.
Quanto ao sertão, quanta renúncia atravessaram!
Todo homem sozinho devia fazer uma canoa
e remar para onde os telegramas estão chamando.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O filho que eu quero ter

Confesso que não conhecia essa música.
Deve ser famosa, mas eu nunca a tinha ouvido.
Mas ela é tão tocante que foi impossível conter o choro.
Porque descreve bem o que é ser pai, te transporta a posição paternal numa linguagem simples e imensamente bela.
Não sei mexeu comigo pelo meu lado pai ainda latente (rsrs)... Mas acho que qualquer um se emociona.
A sonoridade também é simples, pelo menos no álbum "Vinicius/Toquinho". Voz, violão e piano. Mas é carregada de poesia e é extremamente cenográfica, por retratar a relaçao pai-filho do nascimento à morte.
Na verdade, não há morte, apenas a continuidade da vida.
Coloquei o link ao final da letra com um vídeo onde a canção pode ser apreciada. Ainda estou aprendendo a ter um blog. Peço perdão por eventuais falhas. Só não tem o acompanhamento do piano do original. Mas já serve.


O Filho Que Eu Quero Ter

Composição: Toquinho/ Vinicius de Moraes

É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem


De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem


Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.




Encerro a semana Vinícius de Moraes... hehehe

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Fogo sobre Terra

Fogo sobre Terra

(Vinicius de Moraes)


A gente às vezes tem vontade de ser
Um rio cheio pra poder transbordar
Uma explosão capaz de tudo romper
Um vendaval capaz de tudo arrasar

Mas outras vezes tem vontade de ter
Um canto escuro onde poder se ocultar
Um labirinto onde poder se perder
E onde poder fazer o tempo parar

Oh, dor de saber que na vida
É melhor de saída
Ser um bom perdedor
Amor, minha fonte perdida
Vem curar a ferida
De mais um sonhador

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Vazio

Falta...
Falta alguma coisa.
Falta o cheiro das manhãs e a voz.
“Bom dia!”

Falta...
Falta o calor nos ombros e a respiração.
Suspiro.

Falta...
Falta a mão, mesmo que suada, na minha.
Completa.

Falta...
Falta o ouvido às minhas divagações.
Meus devaneios.

Falta...
A cadeira fica vazia na mesa.
Ao meu lado.

Falta...
A volta do trabalho, um caminhar sozinho.
Tristeza.

Falta...
No mercado, poucas sacolas.
Ninguém a esperar.

Falta...
A conversa, as histórias.
A sensibilidade.

Falta...
No sofá , a mesma chatice.
Tv desligada, sem colo.

Falta..
A noite é vazia, sem gosto.
Sem cheiro.
Um vazio.

Volta!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Coração, bate forte!

-João do céu! O teu pai está com os nervos à flor da pele hoje!

-Nossa! Por quê?

-Acho que é por causa da Dressa. Você vai ter que dar muitos conselhos, pro bem dele.

-Mas o que está acontecendo?

-Ele tem lembrado muito dela. Acho que está preocupado também com o cateterismo, pelo que percebi. Está ansioso. Mas vai dar tudo certo e logo ele vai se acalmar.

É , Pai, conselhos eu não sei se tenho pra te dar. Muitas vezes a palavra me foge. Vem o nó na garganta, que logo denuncia que não sei bem o que fazer.
Você sempre fala as coisas. Não fica pensando no que dizer. O teu conselho é incisivo. É daqueles dados com a certeza de quem ama e quer o bem. Vem do coração.
Eu, na tua presença, até falo alguma coisa. Mas o que digo fica muito pequeno diante da nobreza e da grandeza de teus sentimentos. O que poderia dizer eu para uma pessoa que dedica toda sua vida a mulher e filhos? Eu posso tentar imaginar o que é isso, mas, no fundo, eu não sei.
Sentimento não é para se esconder, não é para guardar ou para segurar.
Por isso, Pai, só peço para que você não deixe que os sentimentos te afoguem, te apertem. Eles parecem querer transbordar. Mas evite deixá-los explodir, por mais difícil que seja em alguém que ama tanto.
Porque o que mais quero é que o coração continue batendo forte.

Outro texto sobre pai e inspiração:
http://tatilazz.blogspot.com/2009/11/desaniversario.html

terça-feira, 12 de maio de 2009

On the road

Estou acumulando milhas de viagem em aventuras automobilísticas (e jornalísticas) na "Metrópole Guarapuavana". Tudo começou modestamente, numa cidade chamada Pinhão, com a ajuda de um técnico em veterinária (ou médico veterinário, que me perdõe a falha), que em fevereiro me explicava como era feito o melhoramento genético do rebanho leiteiro.
É... já imaginava que aquela seria a primeira de muitas matérias com temáticas agropecuárias ao percorrer a vasta região. Mas, quando imaginaria falar sobre melhoramento genético bovino???!! Não... não cheguei a acompanhar a inseminação artificial, a extração do sêmen, etc, etc. Já seria demais. No entanto, estava eu trilhando estradas, atravessando pastagens, deixando entrevistados rubrorizados ao tentarem reunir algumas novilhas para uma foto com pouco sucesso.
Outras viagens vieram depois: estrada de terra, daquelas patroladas. Até que tive sorte, pois não peguei períodos de longa estiagem, quando o pó levanta e invade qualquer fresta do veículo. Fui parar em laranjais limítrofes a áreas alagadas por reservatórios de hidrelétricas em Candói, tendo o secretário de agricultura como guia-motorista. Tudo para entrevistar agricultores que temiam (ou ainda temem) perder parte de suas terras com a obrigatoriedade de implantar uma área de preservação ambiental. Do secretário, lembro a presteza, ao acompanhar-nos com um dos agricultores que nos deu carona em sua invencível toyota bandeirante (pasme!) com tração 4 X 4. Eram umas 10 porteiras até chegar à represa. A certa altura, o secretário seguiu viagem na carroceria para, num esforço homérico, descer e abrir cada porteira. Até chegarmos ao Salto Santiago. E continuou no retorno! Não sei se aguentou com as pernas ao final do dia. Enfim...
Também em Candói, numa outra oportunidade, cheguei a sentir o gosto de pés de soja picados por uma colheitadeira. É que a máquina já havia passado por mim e um defeito na câmera (juro, não foi culpa do fotógrafo) fez com que perdesse a imagem do trambolho vindo de frente- mostruosidade para o bicho urbano que nunca havia visto uma de perto antes. Como por encanto, iniciei corrida atrás daquela colheitadeira em busca de um ângulo. Sem manter a distância prudente, fui supreendido por tanta planta picada. Minha camisa branca ficou um tanto verde.

Bem, é muita história, nem tem como contar tudo... Viagem debaixo da mata fechada em Turvo, a um faxinal em Pinhão atrás de araucárias marcadas para caírem.

Mas, hoje, em Pinhão, pela primeira vez peguei o volante em solo lamacento!

Vale ressaltar a inexperiência do motorista. Todos os caminhos lembrados anteriormente foram feitos no assento direito. Sim, eu não dirigia. Mas, dessa vez, a aventura foi no lado esquerdo. À direita estava o Ari, auxiliar administrativo da secretaria de agricultura. Ari conhece vários agricultores- e ele também é um deles. Dessa vez, foi incubido de levar um jovem jornalista a produtores que deixaram de lado os fornos de carvão para ingressar na pecuária leiteira.

Na primeira propriedade, o acesso foi por asfalto. Entrevistei um produtor com um olho nele e o outro nas vacas, já que cheiravam e lambiam amistosamente o veículo que até ali me levou. Mucio (nome austríaco), espantava entre uma afirmação e outra.

O melhor ainda estava na segunda viagem. Havia o segundo entrevistado. Ari me aponta na rodovia os fornos de carvão. "Depois da curva tem uma entrada. É logo ali". Pergunto: "Já entro no acostamento?", imaginando que era à direita. "Ali, já passou!". "Mas tem outra ali à frente".

Estrada de terra. O chão parecia um tanto fofo. A chuva havia passado pela região há mais ou menos uma hora. Primeira curva à direita. Uma encruzilhada ali, outra aqui. O volante parece escapar. Mãos firmes, aceleração constante, esqueça o freio. Uma curva um pouco mais acentuada exige mais firmeza. O pulso dói. Essas horas, aqueles conhecimentos teóricos ou resultantes da observação momentos nos quais estava no banco direito vem à mente. Quando a situação parece difícil, vale a apelação a forças superiores.

Lição nº 1) Avalie bem o solo onde pisará. Se perceber que as chances de atolar são grandes, não prossiga! Não confie tanto no visual.

Lição nº 2) Viu poças, não pare sobre as mesmas. Tente uma trilha sem água. Se não houver trilha, passe reto, sem acelerações bruscas ou freadas.

Lição nº 3) Regra básica: não frear. Está certo que tem barro, lama, mas não vá querer andar de ladinho, dando uma de caranguejo.

Lição nº 4) Não diminua a aceleração na subida. Não queira submeter-se uma 'patinaçãozinha'.

Lição nº 5) Cuidado com possíveis britas no caminho. Já ouviu falar de pedra-sabão?

E não se irrite se o entrevistado não quiser falar sobre o assunto. Respire fundo, coloque a chave na ignição, aperte o cinto, reveja as lições e mantenha-se calmo. Afinal, está escurecendo, você percorreu só metade do trajeto e as pessoas te esperam na cidade. Também não fique nervoso se, na entrada da cidade, em pista bem plana e sólida, um caminhoneiro se ache o dono da pista, desafiando qualquer lógica matemática ou física a respeito do espaço, ocupando duas faixas ao mesmo tempo.

Ari: "Rapaz, para quem está começando, você é corajoso, hein?".
Ah, que isso! Sempre quis ser piloto de rally! Só não esperava uma iniciação tão precoce...

domingo, 3 de maio de 2009

A Via Láctea

Assisti esse filme no Canal Brasil essa noite.
Achei muito bom.
Heitor, interpretado por Marco Ricca, segue no trânsito caótico de São Paulo até a casa de Júlia (Alice Braga), sua namorada. Após uma discussão por telefone, ele mostra a inquietude diante do relacionamento, diante da possibilidade da perda.
Assistam. O filme não é novo. Foi lançado em 2007. Mas nunca tinha visto algo sobre ele.
Vai uma amostra no link:
http://www.youtube.com/watch?v=1Xn9y6G2Pvk&feature=related

Mais detalhes em:
http://www.avialactea.com.br/principal.asp