Há pessoas com quem você não se consegue desligar. São tantas coisas vividas juntos que o tempo vira mera arbitrariedade, convenção tão pequena, ínfima... Ah, régua humana limitada! Fica um elo tão forte que a tentativa de negá-lo, mesmo que a toda força, torna-se a maior das brigas. É conflito tempestuoso, doloroso, porque saltam canhões a apontar contra... si mesmo. A tentativa de preencher o vazio deixado vira uma batalha injusta com aquilo que se sente. Porque fica a ânsia pelo arroubo, o impulso de vida vindo daquela energia que circulava até há pouco tempo. A essência ainda está ali, impregnada em você, em algum lugar que não consegue explicar, por mais que vasculhe os cantos da alma. Mas, como em um teatro shakesperiano, afloram os dramas humanos, em dúvidas, incertezas. E se há trilha sonora, violinos abrem uma sinfonia em tom agudo, num lamento entrecortado por flautas, clarinetes, trompas e trombones. Os instrumentos somam-se nessa orquestra descontrolada, formando um tutti, que retoma o agudo dos violinos ao final. A vontade é de mudar a sinfonia ou a peça, mas se percebe que nem tudo é tão simples. Fica o desejo de algo sem fim, com um perfume de rosas a cobrir e resgatar a força de momentos felizes. Em cena, pétalas se juntam num mosaico imenso, sem que se consiga ver o horizonte, celebrando o encontro. Que desse impulso imaginativo elas se materializem e o vento as carregue por léguas, nem que sobre ao menos uma delas...
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Catch The Wind
(Segure o Vento)
In the chilly hours and minutes, Nas horas frias e minutos,
Of uncertainty, I want to be, De incerteza,eu quero estar,
In the warm hold of your loving mind. No calor seguro de sua mente amorosa.
To feel you all around me, Sentir você a minha volta,
And to take your hand, along the sand, E pegar sua mão, ao longo da areia,
Ah, but I may as well try and catch the wind. Ah, mas eu posso também tentar e pegar o vento.
When sundown pales the sky, Quando o pôr-do-sol empalidecer o céu,
I wanna hide a while, behind your smile, Eu quero me esconder um instante, atrás do seu sorriso,
And everywhere I'd look, your eyes I'd find. E todos que eu olharia, seus olhos eu encontraria.
For me to love you now, Para eu te amar agora,
Would be the sweetest thing, 'twould make me sing, Seria a coisa mais doce, me faria cantar,
Ah, but I may as well, try and catch the wind. Ah, mas eu posso também, tentar e pegar o vento.
When rain has hung the leaves with tears, Quando a chuva derrubou as folhas com lágrimas,
I want you near, to kill my fears Eu quero você por perto, para matar os meus medos
To help me to leave all my blues behind. Para me ajudar a deixar todas as tristezas para trás.
For standin' in your heart, Ficar no seu coração,
Is where I want to be, and I long to be, É onde eu quero estar, e muito tempo estar,
Ah, but I may as well, try and catch the wind. Ah, mas eu posso também, tentar e pegar o vento.
Li este poema há pouco e acho que reflete bem o meu momento. Os telegramas chamam para a necessidade de olhar a si mesmo. A casa é a alma, sedenta de purificação. De uma limpeza da "caixinha de telegramas". Ou talvez a alma seja a cidade enigmática, que me chama diante da paralisia... Ou talvez eu esteja mais uma vez divagando, com interpretações outras de um poema.
Notícias Carlos Drummond de Andrade
Entre mim e os mortos há o mar e os telegramas Há anos que nenhum navio parte nem chega. Mas sempre os telegramas frios, duros, sem conforto.
Na praia, e sem poder sair. Volto, os telegramas vêm comigo. Não se calam, a casa é pequena para um homem e tantas notícias.
Vejo-te no escuro, cidade enigmática. Chamas com urgência, estou paralisado. De ti para mim, apelos, de mim para ti, silêncio. Mas no escuro nos visitamos.
Escuto vocês todos, irmãos sombrios. No pão, no couro, na superfície macia das coisas sem raiva, sinto vozes amigas, recados furtivos, mensagens em código.
Os telegramas vieram no vento. Quanto ao sertão, quanta renúncia atravessaram! Todo homem sozinho devia fazer uma canoa e remar para onde os telegramas estão chamando.
Confesso que não conhecia essa música. Deve ser famosa, mas eu nunca a tinha ouvido. Mas ela é tão tocante que foi impossível conter o choro. Porque descreve bem o que é ser pai, te transporta a posição paternal numa linguagem simples e imensamente bela. Não sei mexeu comigo pelo meu lado pai ainda latente (rsrs)... Mas acho que qualquer um se emociona. A sonoridade também é simples, pelo menos no álbum "Vinicius/Toquinho". Voz, violão e piano. Mas é carregada de poesia e é extremamente cenográfica, por retratar a relaçao pai-filho do nascimento à morte. Na verdade, não há morte, apenas a continuidade da vida. Coloquei o link ao final da letra com um vídeo onde a canção pode ser apreciada. Ainda estou aprendendo a ter um blog. Peço perdão por eventuais falhas. Só não tem o acompanhamento do piano do original. Mas já serve.
O Filho Que Eu Quero Ter
Composição: Toquinho/ Vinicius de Moraes
É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem
De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim Dorme menino levado, dorme que a vida já vem Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem
Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.
-João do céu! O teu pai está com os nervos à flor da pele hoje!
-Nossa! Por quê?
-Acho que é por causa da Dressa. Você vai ter que dar muitos conselhos, pro bem dele.
-Mas o que está acontecendo?
-Ele tem lembrado muito dela. Acho que está preocupado também com o cateterismo, pelo que percebi. Está ansioso. Mas vai dar tudo certo e logo ele vai se acalmar.
É , Pai, conselhos eu não sei se tenho pra te dar. Muitas vezes a palavra me foge. Vem o nó na garganta, que logo denuncia que não sei bem o que fazer. Você sempre fala as coisas. Não fica pensando no que dizer. O teu conselho é incisivo. É daqueles dados com a certeza de quem ama e quer o bem. Vem do coração. Eu, na tua presença, até falo alguma coisa. Mas o que digo fica muito pequeno diante da nobreza e da grandeza de teus sentimentos. O que poderia dizer eu para uma pessoa que dedica toda sua vida a mulher e filhos? Eu posso tentar imaginar o que é isso, mas, no fundo, eu não sei. Sentimento não é para se esconder, não é para guardar ou para segurar. Por isso, Pai, só peço para que você não deixe que os sentimentos te afoguem, te apertem. Eles parecem querer transbordar. Mas evite deixá-los explodir, por mais difícil que seja em alguém que ama tanto. Porque o que mais quero é que o coração continue batendo forte.
Outro texto sobre pai e inspiração: http://tatilazz.blogspot.com/2009/11/desaniversario.html