sábado, 2 de outubro de 2010

Mundo Novo

Libertação.
Elis Regina, na letra de Gonzaguinha, canta bem isso.
Perco-me na música.
Nela descubro porque viver faz sentido.
É a busca incessante dessa liberdade, do Mundo Novo.
Dentro da gente.

Mundo Novo, Vida Nova


Buscar um mundo novo, vida nova
E ver, se dessa vez, faço um final feliz
Deixar de lado
Aquelas velhas estórias
O verso usado
O canto antigo
Vou dizer adeus
Fazer de tudo e todos bela lembrança
Deixar de ser só esperança
E por minhas mãos, lutando me superar
Vou traçar no tempo meu próprio caminho
E assim abrir meu peito ao vento
Me libertar
De ser somente aquilo que se espera
Em forma, jeito, luz e cor
E vou
Vou pegar um mundo novo, vida nova
Vou pegar um mundo novo, vida nova.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sugestão para fugas

Tem se tornado chato ultimamente falar de fuga de presos na província em que vivo.
Nos últimos 3 meses, 3 fugas da cadeia.
E se for contar as tentativas que os policiais acabam frustrando, a estatística já aumenta um pouco.
E olha que estava tudo tranquilo. Quando já se passava reto do fim da folha de julho para o início da de setembro, eis que surge outro episódio.
E lá vem as perguntas que estou cansado de fazer, a velha procura por novos caminhos pra tratar o assunto, que quase chegam as mesmas respostas... superlotação, falta de vagas, escassos funcionários.

Mas, por obra do acaso, encontrei esse texto do Rubem Alves que brinca com tema semelhante.

- Sugestão prática para resolver nosso problema penitenciário: Leio que o “Bóris“, criminoso da quadrilha do Andinho, fugiu da penitenciária. Parece que os criminosos fogem das penitenciárias quando querem. É claro que é preciso pôr um fim a esse estado de coisas. Aí eu tive uma idéia brilhante: é normal que os governos estabeleçam convênios de cooperação: um ajuda o outro. Acontece que a penitenciaria de Alcatraz, a mais famosa de todas, foi desativada. Ela está localizada num local aprazível, charmoso, cobiçado por turistas, uma ilha na baía de S. Francisco com vista para a Golden Gate Bridge, se não me engano. Pensei: que desperdício! Aquela fortaleza magnífica, vazia. Aí pensei que o governo brasileiro poderia fazer um convênio com o governo Bush: em troca da nossa cooperação no combate ao terrorismo, o governo americano nos alugaria Alcatraz, para o combate ao crime. Nada mais prático. Pois é certo que os criminosos se sentiriam felizes por estar num lugar tão privilegiado, tão famoso. Não quereriam fugir. Viveriam a gozar as delícias daquele condomínio cercado por mar e poderiam se dedicar a atividades que eventualmente comoveriam o seu coração e os tornariam sábios e ordeiros... É preciso notar, também, que sobre aquela região paira a possibilidade de um terremoto gigantesco que levaria tudo para o fundo do oceano.

Rubem Alves. "Quarto de Badulaques (VIII)". Correio Popular, 31 de março de 2002.

sábado, 4 de setembro de 2010

Na memória

Palavra é fugidia. O sentimento transborda, o pensamento voa na lembrança. As horas passam em recordações que avançam o silêncio da noite no encontro ao dia. O ponteiro corre diante de tantos momentos especiais para recordar.
Se ganhassem telas, as galerias seriam infinitas. Quadros pintados a múltiplas mãos em profusão de cores sem obedecer a convenções ou formas. Tinta para todos os lados. O brilho ofuscaria quem olhasse. Se assumissem a projeção de um filme, faltaria película para retratar tanta coisa. Instantes de magnífica beleza de vida, vivida intensamente. Lições de que à memória não cabe o espaço, não cabe o tempo, não há métrica que dê a medida.
Mas em toda essa imensidão, Andressa, o teu sorriso aparece em toda a parte. Com o nome de princesa que te foi dado, nada mais justo ser lembrada pela ternura do gesto mais simples e encantador. E é assim que tem acontecido nos últimos dias. Todos devem ter lembrado esse sorriso de feição angelical e um olhar diferente. Há algo de perfeição, irmã, de divino na forma com que o espalha em todas as recordações.
É difícil buscar sentido ou respostas. Mas para mim, o sorriso que aparece na memória não exige explicações. Apenas envia a mensagem de que é preciso viver com alegria e braços abertos para o mundo.



Andressa

*16/12/1988 + 31/08/2009

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Patriarcas

Ao telefone, Saulo perguntou à irmã, Anita, o que seu pai precisava.
-Ele está sem chinelo. Da última vez que fui lá, estava usando um muito simples e velho.
Era a deixa para Saulo. Comprou o chinelo, percorreu 215 km e entregou o presente. O pai, Jair, não é daqueles que se queixa se alguém vai se lembrar dele ou não no Dia dos Pais. Vive com a mulher Guta, que já perdeu as contas dos anos vividos, em uma casa aos fundos de outra num declive que os esconde do resto do mundo. Ele, com 78, e ela, 79, vêem apenas o alvorecer e a noite cair no resto de vida que há de se levar.
-Quantos anos vou fazer? Setenta e...?
-Nove, responde Jair. Difícil cobrar à memória embaralhada pelo tempo daquela senhora quantos anos já viveu. Às vezes, tal como criança, maldiz a casa, que não cabe mais nas lembranças dispersas.
Mas Jair abriu um sorriso diferente aquele dia. Por trás dos óculos amarelados e da pele flácida do rosto magro, carregava o brilho no olhar de ser lembrado. Não era só o chinelo que lhe fazia contente, trançado em couro qual sandália, envolvendo pela primeira vez pés finos, alvos, base reta e grossa. Era o beijo que o filho cinquentenário vinha lhe trazer, o alívio de passar um breve tempo juntos a conversar na varanda. Eles, as esposas e um neto de Jair, Jorge, num dia de sol descortinado por tanto tempo de chuva e frio.
E falaram da vida, de parentes, da reforma no banheiro da casa. Riram, lamentaram, conformaram e despediram-se. Jair acompanhou Saulo, sua nora Aurora e o neto, dos fundos até o portão. Guta já não sobe mais degraus e rampas e fica com a diarista, que por vezes é cuidadora.
Mas as pernas finas de Jair ainda o levam. Chorou mais uma partida entre tantas e agradeceu a visita. Religiosamente, terminou com o “Vão com Deus”. E foram.

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Nos fundos da casa, cheiro de churrasco. Era Zé que assava pedaços suculentos de filé ao sol quente do começo de tarde em agosto. Boné na cabeça para proteger a careca e os poucos cabelos ao redor, brancos como as nuvens, que resolveram não aparecer no céu daquele dia. A carne na grelha de uma pequena churrasqueira sempre foi a especialidade e a melhor forma de receber os entes queridos. Reunião de família sem o churrasco não era reunião de família.
-Eles gostam bem passada. Mas essa aqui ‘tá meio no ponto’. Belisca aí.
Queixava-se ainda não estar tudo pronto.
Saulo e a filha Aurora acabam de chegar. Não tardou para que ela mostrasse à mãe Maria e à irmã Elis o presente que daria ao pai. O sobrinho, o pequeno João Paulo, 4 pequenos anos, logo arrancou a sacola da mão e correu sala adentro, cozinha e varanda.
-Vô, vôôô. Ó o teu presente, gritou subindo a escada.
O vô Zé riu sem jeito e achando graça. Tirou a caixa da sacola e abriu. Era um perfume, presente favorito, com o qual banhava-se depois da ducha diária. A caixa azul, semelhante ao perfume da propaganda na TV, logo provocou alvoroço no menino.
-Era bem esse que eu queria dar.
O vô preocupado com a proximidade do presente com a churrasqueira, já ia pedindo pra guardar. Mas logo foi interrompido.
-Não vai me dar um abraço?
-Papagaio come milho, periquito leva a fama! sacou a tia Aurora.
Entre gargalhadas, João Paulo ganhou o abraço forte do Vô Pai.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Pra quê dizer que a vida é mesmo assim???

Tinha que ser do Hebert Viana!!!
Tinha que apertar o play justo nela hoje...
Nada acontece por acaso!



Quando Você Não Está Aqui

Composição: Herbert Viana / P. C. Valle

Prá quê dizer que a vida é mesmo assim?
Prá quê negar que estou longe de mim ?
Sonhando com você, sonhando em te rever, prá quê?

Prá quê buscar palavras na razão?
Me diz, prá quê?
Se gente é coração, se insisto em te querer e não sei
te esquecer, prá quê?

Quando você não está aqui, é sempre noite sem luar e sem fim
Quando você não está aqui, nem as estrelas vão brilhar pra mim

Prá quê dizer que o sonho é uma ilusão?
Prá quê buscar pra tudo explicação?
Quem ama é sonhador, eu só tenho um amor, você

Quando você não está aqui, é sempre noite sem luar,e sem fim
Quando você não está aqui, nem as estrelas vão brilhar pra mim

Prá quê dizer que a vida é mesmo assim?
Prá quê negar que estou longe de mim?
Sonhando com você, sonhando em te rever...prá quê?

Beija-flor



Aperta firme a delicada mão da dançarina.
Aproxima-se... rápido movimento.
Puxa pelo braço esquerdo.
Com o direito, lance rápido.
Apoio a pequenas costas.
O tecido liso... do vestido, da pele.
Acima, o grosso ombro do paletó.
Ela elástica, ele inabalável.
Paralisia do instante.
Cheiro
Olhos cerrados
Beija-flor



(A foto não é minha. É de um espetáculo chamado "Tango a Tierra", São Paulo, março de 2007. Pena que não encontrei o crédito)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Canta, Gal Costa, fala por mim!

Canta, Gal Costa, canta!
Você sabe bem cantar a paixão. Expressa o que quero dizer, mas nem sei como, a alguém que amo tanto. Dizes um pouco de um dos momentos mais lindos que vivi.

Te Adorar
Gal Costa
Composição: Lokua Kanza/ Carlos Rennó

Nada mais me atrai
Que tua tez morena, ai, ai, ai.
Talvez por eu ser o teu servo,
Com certa obsessão a observo.

Nada faz brilhar
E agrada mais ao meu olhar;
Pois se eu te vejo, meu buquê,
Vejo o que eu mais desejo ver...

A te adorar, parado em ser teu par,
A te adorar, dourar, dourar...
Te ver me dar tudo que és,
Da cabeça até os pés.

Nada mais me traz
Felicidade e paz
Do que ver-te, ver-te sorrir;
É como sorver um elixir.

Fico a te focar;
Mergulho fundo no teu olhar.
Mesmo quando o gozo já vem,
Eu me afundo bem ali e além...

A te adorar, parado em ser teu par,
A te adorar, dourar, dourar...
Te ter, me dar a tudo que és,
Da cabeça até os pés.

Te adorar...
Te adorar, dourar, dourar...
Te ver me dar tudo que és,
Da cabeça até os pés.

Te adorar...
Te adorar, dourar, dourar...
Te ver me dar tudo que és,
Dez mil vezes, mil vezes dez!